Os costumes de antigamente, como sentar-se com o vizinho à tarde ou nos fins de semana para trocar ideias, receitas ou simplesmente bater papo, definitivamente mudaram. Já é raro hoje conseguir tempo para cultivar boas relações com quem mora ao lado, algo comum até algumas décadas atrás. Qual foi a última vez, por exemplo, que você levou ao vizinho uma fatia do bolo recém-saído do forno?
Com muitos afazeres diários e pouco tempo de lazer, há o aumento do estresse, que leva a pessoa a chegar em casa, ir para baixo do chuveiro e relaxar. Por isso, as relações entre moradores de um mesmo andar, ou de uma mesma rua, acabam restringindo-se à solução de um problema. E, muitas vezes, não de uma forma gentil.
“Os vizinhos são quase como uma família que a gente não escolhe”, afirma a administradora Naiara Soares Pinto, de 27 anos, moradora de Chapecó (SC). E, como forma de conviver harmoniosamente com a vizinhança, ela usa tolerância, respeito ao próximo e receptividade. “Devemos ser educados, pois a recíproca será verdadeira”, indica.
Porém, nem sempre a paciência é a qualidade que mais impera na relação porta a porta. O Sindicato da Habitação de São Paulo (Secovi-SP) aponta que os problemas mais comuns na convivência envolvem basicamente quatro palavras que começam com a letra “c”: cachorro, carro, cano e criança – e, naturalmente, o desenrolar de todos os tumultos ocasionados por elas. E não é todo mundo que “tira de letra” e com bom humor situações que, frequentemente, tornam-se embaraçosas e fatigantes.
Na Justiça
Alguns desses conflitos podem transformar-se em processo na Justiça e levar anos para serem julgados, observa Hubert Gebara, vice-presidente de Administração Imobiliária e Condomínios do Secovi-SP. Mas como evitar esses transtornos? O caminho é a conciliação, indica Márcio Chéde, coordenador da Câmara de Mediação do sindicato. “O índice de acordo para os casos que chegam à Câmara é de 95%”, afirma.
Ele considera que não existe um tipo de problema especialmente pior de resolver. “Os mais difíceis são os que demoram a ser levados a uma instância que possa promover esses acordos”, explica. Com a demora para a solução, geralmente há um desgaste entre os envolvidos e uma animosidade que impede o diálogo. “Condomínio é um local de convivência entre muitas pessoas, e o ser humano é imprevisível.”
Mais diálogo e educação
Construir uma relação boa entre vizinhos exige, em geral, dois ingredientes básicos: diálogo e educação. É exatamente nisso que aposta a publicitária Amanda Bairos, de 23 anos. Ela mora com a família há 15 anos no mesmo prédio, em Santos (SP), e lembra que, desde criança, convive com “incômodos” criados pelos moradores.
Mas, em vez de fazer um “barraco”, ela prefere uma conversa direta, pessoalmente. “Quando não dá, procuro a administradora do prédio, que pode servir de intermediária.” A criatividade e a paciência podem ser outras alternativas para um convívio coletivo saudável. Amanda lembra um caso que ocorreu há algum tempo. O cachorrinho da vizinha fazia suas necessidades pelo corredor. “Colocamos bilhetes pelo prédio todo, dando avisos, e funcionou.”
Por situações como essa, Chéde, do Secovi-SP, alerta: é importante tentar acabar com o conflito logo no início. “Assim, você evita um clima de tensão entre os moradores.”